Mostra Nacional de Vídeos em Saúde – A  Produção Videográfica em Pernambuco

 

Silvia Bezerra dos Santos

Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fundação Oswaldo Cruz – Recife/Pernambuco

Graduada em Comunicação Social, Especialista em Comunicação e Saúde

sbsantos@cpqam.fiocruz.br; silviab.santos@globo.com

 

Resumo: O trabalho teve como objetivo classificar e identificar, na instância da produção, algumas estratégias discursivas dos vídeos em saúde de Pernambuco participante das quatro edições da VideoSaúde – Mostra Nacional de Vídeos em Saúde, promovidas pela Fundação Oswaldo Cruz. Para tal foram classificadas as 48 produções de Pernambuco, a partir das “variáveis” duração; formato; tema; produtor; expressão; objetivo comunicacional; público prioritário e gênero. A conclusão a que se chegou foi que a tradição de pensar e fazer comunicação como difusão de informações ainda é hegemônica na saúde. No entanto,  novas abordagens – no campo teórico-metodológico e nas práticas de comunicação - são visíveis nas produções examinadas. Em relação as práticas, muito se deve ao processo de implantação do SUS, que tem provocado uma aproximação com os novos processos de construção dos sentidos sociais.

1. Saúde  2. Comunicação. 3. Vídeo


INTRODUÇÃO

O vídeo é um meio de comunicação com modo de produção e exibição próprios, com conteúdo e público específicos, diferente dos da tv ou do cinema. (SANTORO, 1989, p.18). Este trabalho, lida com essa especificidade de conteúdos e públicos na área da saúde, concentrando-se na produção realizada em Pernambuco e que participou das quatro edições da VideoSaúde – Mostra Nacional de Vídeos em Saúde, ocorridas na década de 90.[1]

            As primeiras câmeras de vídeo acopladas a gravadores portáteis surgiram em 1965 e foram colocadas no mercado pela indústria eletrônica japonesa para inicialmente serem utilizadas no treinamento de funcionários nas empresas e mais tarde para o lazer da classe média. Mas os seus diversos usos e práticas superaram as expectativas industrias. No Brasil, nos anos 70, as primeiras experiências com o vídeo foram feitas por artistas plásticos em busca de novos suportes para a produção, o chamado videoarte. (MACHADO, 1985, p. 34).

Na década de 80, com os avanços tecnológicos, o fortalecimento do movimento popular e a luta pela democratização dos meios de comunicação, o vídeo atraiu a atenção de novos realizadores, tanto do setor público como o privado. Sobretudo na sociedade organizada e nas organizações não governamentais, o vídeo provocou um forte impacto:

 

Ele foi visto como a grande solução para todos os problemas de comunicação. Surgiram vários cursos sobre produção e metodologia de exibição. Foi criada uma associação nacional de produtores de vídeos voltados para o movimento popular (ABVP). Passou-se a produzir muito, em toda parte, principalmente Rio e São Paulo. (ARAÚJO ; AZEVEDO, 1992).

 

 

É neste cenário - de redemocratização, de fortalecimento dos movimentos sociais, sobretudo aqueles que reivindicavam a melhoria dos serviços de saúde e do aumento da produção em vídeo - que é criado, em 1988, o Núcleo de Vídeo da Fundação Oswaldo Cruz (NVT), hoje Departamento de Comunicação e Saúde (DCS). Nasce com “o propósito fundador de instituir-se como pólo de referencia a reunião e catalogação da produção videográfica brasileira e sua distribuição para instituições do Sistema Único de Saúde (SUS) e outras entidades sem fins comerciais”. (FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ, 199?).

Quatro anos depois, em 1992, para desempenhar efetivamente esta atividade é criada a VideoSaúde-Distribuidora da Fiocruz, proporcionando ao então nascente SUS um espaço público de difusão da produção videográfica brasileira em saúde e uma estrutura de atendimento às instituições.Hoje o acervo central na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro, reúne em torno de 3.000 vídeos.

Para estimular e difundir a produção de vídeos sobre saúde e também incorporar novos títulos ao acervo, o setor promove periodicamente um concurso, intitulado VideoSaúde - Mostra Nacional de Vídeo sobre Saúde, para a escolha dos melhores vídeos sobre saúde produzidos no Brasil[2]. O concurso tem como principais objetivos estimular a produção de vídeos sobre saúde e incorporar novos títulos ao acervo do setor. O objetivo maior, no entanto, é que o evento se transforme num instrumento para a identificação e reunião da produção videográfica brasileira sobre saúde sendo disponibilizado para o público. Todas as produções inscritas nas mostras são incorporadas ao acervo da VideoSaúde Distribuidora, que as disponibiliza através da reprodução de cópias e  através de empréstimo, via a rede de videotecas. Após cada edição do concurso são promovidas também mostras itinerantes pelo Brasil.

O acervo da Distribuidora e as Mostras abrangem também vídeos de temas afins à saúde, a partir do entendimento de saúde como está expresso no Art. 3º, da Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990.[3] 

Historicamente as práticas e políticas de saúde sempre contaram com a contribuição da comunicação, apesar de dela fazerem uso com fins bem específicos:

A construção histórica dos vínculos entre os campos da saúde e comunicação atravessa séculos e, no Brasil, vem sendo tecida de forma mais nítida desde a década de 20. De maneira bem esquemática, podemos dizer que, no campo da saúde, as ações de comunicação e de educação foram geralmente implementadas com o objetivo de difundir para a população as concepções médico-científicas hegemônicas e implantar as normas, condutas e valores estabelecidos pelas autoridades sanitárias. (BRANDÃO; ARAÚJO; CARDOSO, 2002, p. 03).

 

 

Já o campo da comunicação tem entre seus vários modelos teóricos, um que se tornou paradigmático e balizador dos processos de intervenção social, tão freqüentes na saúde pública. É o modelo informacional, de Shannon & Weaver (1949), que representa o processo de comunicação acontecendo entre dois pólos: um emissor, que transmite uma mensagem codificada para um receptor, através de um canal. (ARAÚJO, 2002).

Estabelece uma relação vertical e autoritária. Este modelo, que chega a ser apresentado como sendo a representação do processo de comunicação, está entranhado na maioria das decisões estratégicas de comunicação. No campo das políticas públicas este tem sido a versão utilizada pelo Estado para se relacionar com a sociedade brasileira.

No entanto, nas últimas décadas vêm se intensificando os debates e os estudos sobre os modelos teóricos da comunicação e as práticas desenvolvidas. Novos olhares e novos fazeres acontecem, sobretudo os que buscam avaliar as estratégias comunicativas adotadas por entidades públicas e privadas nos processos de intervenção social no campo da saúde.

O estado de Pernambuco sempre teve uma participação de destaque no acervo e nas mostras da VideoSaúde. No acervo, só perde para São Paulo e Rio de Janeiro em número de títulos. Em relação às mostras nacionais, Pernambuco é o estado do Nordeste com o maior número de títulos inscritos, tendo, inclusive, três produções premiadas nacionalmente, na III e na IV VideoSaúde. [4]

Com este trabalho, a partir da classificação e identificação de algumas estratégias discursivas de uma amostra dos discursos produzidos e circulantes sobre saúde na década de 90 em Pernambuco, espera-se contribuir para estes estudos. A pesquisa foi realizado ao longo de dois meses, sendo objeto de estudo as 48 [5] produções inscritas nas quatro edições da VideoSaúde – Mostra Nacional de Vídeo em Saúde promovidas pela Fiocruz nos anos noventa e em 2003.


DESCRIÇÃO DA PESQUISA

  A pesquisa foi dividida em 4 fases: coleta das produções pernambucanas participantes, confecção da ficha de visionamento, visionamento, tabulação e análise dos resultados. Foram objetos de estudo 48 títulos de Pernambuco participantes das quatro mostras, assim distribuídos: 1 vídeo na I VideoSaúde (1992); 15 produções na II VideoSaúde (1994); 23 títulos na III VideoSaúde (1998); 09 vídeos na IV VideoSaúde (2003). Pernambuco é o estado nordestino que apresenta o maior número de títulos inscritos: 48 nas quatro mostras. A terceira mostra, em 1998, contou com a participação de 23 produções do estado. A menor participação pernambucana foi na IV VideoSaúde, com apenas um título inscrito. (Ver gráfico 1 e 2 ).

 

 

 

 

 

 

 


      

 

      

           Gráfico 1 – VideoSaúde – Produções em Pernambuco

 

        

 

 

 

 

 

 

 

           Gráfico 2 – VideoSaúde – Produções do Nordeste

 

A relação das produções participantes foi feita a partir dos catálogos das mostras. Um formulário foi especialmente elaborado para o visionamento de cada produção. Cada um dos 48 títulos foi visionado observando-se as questões presentes no formulário.Por fim, os dados foram tabulados e discutidos.

 

 


 

METODOLOGIA

Gostaria de esclarecer que, pelas características do trabalho aqui proposto[6], o que seriam os “dispositivos de enunciação”, eu estou chamando de “variáveis”, entendendo variáveis como um conjunto de critérios classificatórios escolhidos em um universo de elementos de uma amostra. Isto é, os termos para classificação foram dados antes de tudo pela própria amostra. E os termos para se tornarem claros e compreensivos precisam ser definidos: Definir é fazer conhecer o conceito que temos a respeito de alguma coisa, é dizer o que a coisa é, sob o ponto de vista da nossa compreensão. (...) Quando definimos, dizemos o que a coisa é, separando-a do que não é”. (RUDIO, 1978. p. 25).

            Sendo assim, elegi como principais “variáveis” : duração; formato; tema; produtor; expressão; objetivo comunicacional; público prioritário e gênero de cada produção.

 

 Variável Tema

As produções foram agrupadas dentro dos seguintes temas: Aborto; Aids (tudo relacionado à incidência e aspectos da doença, desde tratamento,assistência, prevenção, serviços e movimentos da sociedade organizada); Ações institucionais (questões relacionadas às ações, atividades, programas de saúde realizadas pelas  instituições públicas); Aleitamento; Alcoolismo; Câncer; Cólera; Dengue;Diarréia;Doenças respiratórias; Doença de Chagas; Filariose; Índio;Leishmaniose; Meio ambiente; Mulher (todas às questões ligadas ao universo feminino, como saúde reprodutiva, aborto, política pública e programas específicos); Parasitoses intestinais; Parto e nascimento; Raiva; Saúde pública (aqui entendendo “saúde pública como conjunto de normas, instituições e serviços que se ocupam do saneamento ambiental, da atenção primária à saúde, da coleta de dados epidemiológicos e sua análise para um planejamento adequado da política de saúde e dos programas de ação a nível nacional, regional, comunitário”. (REY, 2003); Saúde mental; Sexualidade; Temas variados (é como estou conceituando a temática própria de programas de tv em estilo revista, com diversos quadros e seções).

É comum um vídeo apresentar mais de um tema. Por isso muitos títulos deste trabalho foram classificados em duas temáticas. Por exemplo, um vídeo que divulga as ações realizadas pela prefeitura de uma cidade sobre o combate a dengue e que aborda também questões relativas aos sintomas, tratamento e prevenção da doença, esta produção foi classificada em duas temáticas: ações institucionais e dengue.

 

Variável Produtor

 

Existem controvérsias em relação à definição de produtor, produção e realizador. Para alguns autores, o produtor seria quem realiza o filme, o vídeo, sob o ponto de vista financeiro e técnico, ou seja, quem capta as imagens, roteiriza e edita. E o realizador seria quem paga e contrata uma produtora para “fazer” o vídeo, seria “o dono do vídeo”, quem detém os direitos patrimoniais sobre ele. No entanto, a maioria das produções examinadas considera o produtor “o dono do vídeo” e o realizador o que “fez” o vídeo, isto é, a produtora de vídeo. E é esta definição de produtor que será utilizada no trabalho.

Os principais produtores destacados na ficha de visionamento foram: organização não governamental (ong), empresa produtora, instituições públicas e privadas de saúde, instituições públicas e privadas de ensino e pesquisa em saúde, outros (o que não se enquadra em nenhum das opções citadas).

Esta variável permite revelar minimamente o “lugar de fala” do proponente. Lugar de interlocução é um conceito desenvolvido por Araújo sendo assim por ela definido:

 

o lugar que cada um ocupa na cena discursiva e na cena social, no momento em que participa de algum ato de interlocução. (...) É um conceito definidor dos sentidos sociais, na medida em que é a partir dos lugares de interlocução em cena que se instauram as relações de poder e são produzidos os sentidos em qualquer prática comunicativa. (ARAÚJO, 2003).

 

Variável Expressão

 

Esta variável pode ser definida como quem se expressa no vídeo, isto é, o vídeo “fala” através de quem? Os escolhidos que constam na ficha de visionamento são: Narrador (entendido como locutor, profissional de locução, encarregado de ler textos informativos ou comerciais); Repórter; Apresentador (aquele que introduz os tópicos principais do conteúdo de um programa de entrevistas, de debates, educativo, etc., apresentando os entrevistados, atuando como entrevistador, anunciando os próximos segmentos do programa, etc.); Autoridade (entendido como dirigentes de órgãos do poder público, como os secretários de saúde estaduais e municipais); Profissional de saúde; Figura pública (atores, atrizes); Personagem (entendendo como figura dramática. Cada um dos papéis encarnados por um ator ou atriz numa representação; Paciente/portador ; Usuário (entende-se usuário como àquele que está ligado aos programas/projetos/ação ou serviços de saúde); População em geral (refere-se ao público não identificado. Estou considerando aqui “população em geral” o que no jargão jornalístico é chamado “povo-fala”. Nas reportagens, muitas vezes, são feitas entrevistas com  pessoas que tem alguma ligação com o acontecimento registrado pela reportagem ou quando se quer saber da população o que ela pensa sobre determinado tema. São entrevistas feitas na rua, em locais públicos, etc.

 

Variável Objetivo Comunicacional

 

Com esta variável busca-se identificar a intencionalidade, ou melhor, a proposta e os objetivos de cada produção. Quais “os sentidos” que um interlocutor procurou “despertar” junto a outros interlocutores? transmitir(informações); transferir (informações); compartilhar informações; participar, dividir (informações); divulgar; documentar; sensibilizar ; incentivar; prescrever; instrumentar.

Dentro também da análise desta variável foi inclusa a pergunta se a produção faz parte de algum programa/projeto/pesquisa/ação de saúde. Esta questão permite, minimamente, contextualizar o vídeo no projeto de intervenção social proposto.

 

Variável Público Prioritário

 

Para quem a produção foi pensada? Primeiramente uma definição abrangente sobre público:

O público não abrange somente as atividades estatais ou diretamente ligadas a atores políticos, mas também o conjunto dos atores - nacionais e internacionais – capazes de influir na organização do sentido coletivo e nas bases culturais e políticas da ação dos cidadãos. (CANCLINI, 1995, p. 257).

 

No modelo informacional de comunicação o sujeito receptor é chamado de público-alvo, como se o público fosse algo imóvel, uma parede ou muro, que deveria ser atingido pela mensagem e depois se avaliaria o seu impacto. A passividade seria, então, uma característica do público alvo, isto é, pode ser atingido a qualquer momento pela intecionalidade comunicativa do emissor. No modelo de mercado simbólico, no entando, cada receptor é um interlocutor que desenvolve estratégias de participar desse mercado, ou seja, modos de negociar seus sentidos. Daí a escolha de classificar não o público alvo e, sim, o público prioritário de cada produção..

Adolescente, mulher, profissional de saúde, paciente/portador, público em geral e usuário foram os “públicos” definidos na ficha visionamento.

 

 Variável Gênero

 

Gênero é aqui entendido como instrumento, como estratégia de comunicabilidade, de mediação da produção com a recepção:

o gênero é uma estratégia de comunicação, ligada profundamente aos vários universos culturais. (...) O gênero não é só uma estratégia de produção, de escritura, é tanto ou mais uma estratégia de leitura. (...) O gênero é um estratagema da comunicação, completamente enraizado nas diferentes culturas, por isso, geralmente, não podemos entender o sentido dos gêneros senão em termos de sua relação com as transformações culturais na história e com os movimentos sociais. Os gêneros tem muito a ver com os movimentos sociais. (BARBERO, 1994, p. 64-65).

 

Os gêneros contemplados na ficha de visionamento são aqueles mais freqüentes nas produções da área: Documentário; Ficção; Vídeo-reportagem; Animação; Programa (jornalístico) de tv.


 

ANÁLISE DO RESULTADOS

 

   O estudo de classificar e identificar, na instancia da produção, algumas estratégias discursivas da produção videográfica em saúde de Pernambuco participante das mostras de vídeo nacionais promovidas pela  Fiocruz, de 92 a 2003,  revelou que quem mais produziu vídeos na área de saúde foram as ong’s, responsáveis por 24 dos 48 títulos examinados.

 A temática foi bastante diversificada concentrando-se, no entanto, nas doenças, sendo a aids a principal delas, aparecendo em 12 vídeos do total. Quem esteve presente na grande maioria das produções (28 títulos) foi o profissional de saúde, seguido do narrador (locutor), que apareceu em 23 produções. O gênero documentário foi o preferido dos produtores e realizadores, com 23 produções, seguido de longe pelo gênero ficção (09). As produções foram dirigidas prioritariamente ao público em geral (22), a mulher (12) e ao usuário(08). Informar (27), divulgar (18) e incentivar (16) foram os principais objetivos comunicacionais dos proponentes da produção audiovisual examinada.

Do ponto de vista técnico, o formato que teve um maior número de títulos, 28 dos 48, foi o betacan e o ano de maior produção foi o de 1992, com 8 títulos, seguido dos anos de 1996 e 1998, ambos com sete produções. Em relação ao tempo de duração dos vídeos destaque para as produções com o tempo entre 20 a 30 minutos (11 títulos).

            Os resultados apresentados pelo estudo realizado permitem que se possa fazer algumas observações sobre a produção audiovisual em saúde de Pernambuco participante das mostras de vídeo nacionais promovidas pela Fiocruz, no período de 1992 a 2003.

            Chamo atenção para o formato utilizado nas 48 produções inscritas, onde apenas um título foi produzido em VHS, um formato amador de captação de imagens, e três no formato S-VHS, formato semi-profissional. A grande maioria utilizou o formato umatic e o formato betacam, sistemas analógicos utilizados nos segmentos profissionais, demonstrando assim o profissionalismo das produções.

            Também é interessante observar a distribuição do tempo de duração das produções. A maioria dividiu-se entre os tempos de 30 segundos, e o intervalo de 20 a 30 minutos. Ganharam os dois extremos. O tempo em torno de 30 minutos é, em geral, o  mais usado em documentário.  O tempo de 30 segundos, no entanto, é mais usual na publicidade. E todas as produções de 30 segundos do universo pesquisado foram sobre Aids e parecem ter sido produzidas para campanhas de mídia. Uma organizadas pela ong’s pernambucana Tv Viva (em 1993) e outra pela Gestos (em 1996).

Como já observamos no capítulo referente aos marcos teóricos, desde os anos 20 que a publicidade vem sendo utilizada no campo da saúde como uma das  armas do campanhismo, ainda hoje uma das principais estratégias de intervenção no campo da saúde pública brasileira.

O assunto “Aids” nos leva para a variável tema, onde a doença ficou em primeiro lugar entre todas que aparecem. Desde o seu surgimento na década de 80 que as questões relacionadas a pandemia da Aids no Brasil  vem ocupando um lugar de destaque não só nas estratégias de comunicação como em toda sociedade. Cardoso em suas observações sobre a complexidade do cenário onde a pandemia da Aids emergiu fala  da existência da “indústria da Aids”:

 

Há, ainda, a ‘indústria da Aids’, expressão que designa a existência de um conjunto heterogêneo de interesses relacionados com a epidemia: não só os relativos ao complexo hospitalar-farmacêutico e à destinação de verbas para pesquisa, direcionando os rumos da investigação, mas também aqueles existentes no interior de movimentos sociais e entidades que atuam em seu enfrentamento (Parker, 2000 apud CARDOSO, 2001).

 

 

Ainda em relação à temática, chamo a atenção que depois da Aids, o tema mais freqüente foi o que eu chamei de “ações institucionais”, ou seja, vídeos que apresentam e divulgam ações e projetos desenvolvidos, sobretudo pelas instituições de públicas de saúde, de pesquisa e ensino e as prefeituras. O vídeo passa ser, nesses momentos, um meio de tornar público, de publicizar, o que andam fazendo órgãos públicos e instituição de saúde.

            E na tentativa de classificar os objetivos comunicacionais das produções, observei que foram, justamente, informar e divulgar os principais propósitos dos produtores aos realizarem as produções.  Em relação à freqüência do objetivo informar, parece confirmar-se o que já foi apresentado na introdução deste trabalho: a comunicação continua sendo vista primordialmente como transferência de informações de um pólo que detém o conhecimento a outro pólo, desinformado e sem consciência. Dessa forma, seria preciso usar um código de acordo com o que se imagina ser identificado pelo receptor, em um veículo adequado e estaria assegurado o sucesso da comunicação.

 

Essa representação, em meio a outros tantos problemas, acaba por reduzir a comunicação a um conjunto de técnicas e de instruções para a produção de mensagens, esvaziando-a como prática social sempre permeada por contextos políticos, culturais, institucionais e marcada por relações de poder entre os participantes. Essa visão instrumental fortalece a concentração do poder de fala e, amparada numa concepção funcionalista da sociedade, transforma contradições e desigualdades de diferentes ordens em falta de informação e/ou problemas de comunicação.  (CARDOSO, 2001, grifo nosso).

 

Ainda dentro da variável “objetivos”, o estudo revelou que a maioria das produções, 69% delas, não trazem informações sobre se a produção faz parte de algum projeto, pesquisa, programa,campanha ou ação de saúde. O trabalho apontou que apenas 31% dos vídeos fazem referência a esta vinculação, o que demonstra a falta de contextualização do vídeo no processo de intervenção social. Além do que aponta para uma possível falta de clareza por parte dos produtores da função a que a produção se destina.

Ainda destacaria entre os objetivos o propósito de incentivar – o uso da camisinha, o aleitamento materno, o parto não intervencionista – e o de documentar.

Ao observar as produções de Pernambuco, através da variável “expressão”, constatei que quem mais “falou” foi o profissional de saúde, e em sua maior parte, o médico. O profissional de saúde “falou” em mais da metade da produção examinada, o que demonstra, mais uma vez a comunicação sendo vista como um dispositivo para difundir as concepções médicas dominantes e implantar condutas e valores estabelecido pelas autoridades sanitárias. Mesmo nos discursos que buscam estabelecer uma outra ordem, o “doutor” é chamado para explicar e confirmar o que está sendo dito.

Em segundo lugar, nesta variável, quem mais “falou” foi o narrador (locutor) que, na verdade, é a “fala do dono do vídeo”. Ora, o locutor, o narrador, apenas lê um texto elaborado de acordo com as diretrizes do produtor e do realizador, mesmo sendo a voz destes.

As considerações acima remetem as questões da relação entre discurso e poder, presentes nas teorias do discurso:

                          O poder concerne aos ‘efeitos discursivos’, diz respeito às gramáticas de reconhecimento, ao ‘consumo discursivo’. Um pode ser apreendido na análise da produção, outro na análise dos processos de recepção dos discursos. (...) As relações de poder entre interlocutores são, assim determinados pela forma como os dispositivos de enunciação são reconhecidos e consumidos. (...) O que significa, exatamente, estar sob o poder de um texto? Segundo Bourdieu, a luta pelo poder é a luta pela imposição das categorias de percepção deste mundo. Isto se faz naturalmente, pela via dos discursos. (ARAÚJO, 2000, p. 146).

 

E na prática médica dominante, a questão do autoritarismo e a concentração de poder assumem contornos bem particulares.

 

As representações dominantes em toda a sociedade são mediadas de forma muito peculiar pela corporação médica. Intelectual orgânico da classe dominante na construção da hegemonia que se expressa em torno do setor saúde, o médico é ao mesmo tempo o principal agente da prática e agente do conhecimento. (MINAYO, 1998, p.180).

 

 

Um outro achado interessante do trabalho é que nenhuma instituição privada de saúde ou instituição privada de ensino e pesquisa foi responsável por alguma produção. As organizações não governamentais é que foram as grandes produtoras, com o dobro da produção das instituições públicas de ensino e pesquisa, que ficaram em segundo lugar.  Podemos observar, a partir da amostra classificada, que o movimento social, ou melhor, as organizações não governamentais e o setor público são os que têm se preocupado com as discussões sobre os problemas de saúde no país e particularmente “de Pernambuco”. É uma constatação de que o processo de implantação do Sistema Único de Saúde vem contribuindo para disponibilizar o acesso a informação, a educação e a comunicação.

Em relação ao público prioritário, observei que a maioria das produções não foi dirigida a nenhum público específico e sim ao público em geral. Se por lado podemos reconhecer que o público em geral poderá ser transformado em usuário no futuro, por outro lado significa que os produtores, a exemplo da não contextualização do vídeo no processo de intervenção, também não tinham clareza para quem gostariam de se dirigir. Muitas produções, no entanto,  se voltaram para públicos específicos. Os destaques entre estes são os homens e as mães. E em terceiro lugar, o público prioritário dos vídeos foi a mulher.

E, por fim, o gênero preferido dos produtores e realizadores foi o documentário, bem na frente do segundo lugar que foi a ficção. Esta opção sugere, como relata Araújo na sua pesquisa sobre a recepção de audiovisuais no meio rural, que muitos educadores preferem utilizar vídeos que reproduzam uma realidade conhecida baseados na crença de que a familiaridade geográfica, física, cultural, conjuntural ou estrutural seria condição para haver interesse, identificação e compreensão.

É interessante observar também a participação de edições de programas de televisão sobre saúde entre os participantes da mostra. Observa-se, então, a presença de programa de saúde nas televisões locais. Um dos programas, “Estação Saúde”, participante da II Mostra, era uma produção independente em parceria com uma produtora pernambucana exibida na programação local da TV Manchete, em 1994. A experiência durou um ano. Um outro foi o programa TV Saúde (que participou da mostra com três edições), ainda hoje produzido e exibido uma vez por mês pela TV Universitária, emissora de canal aberto pertencente à Universidade Federal de Pernambuco.


CONCLUSÃO

 

 

Observando os objetivos a que se propôs o presente trabalho e os resultados encontrados, concluímos que a tradição de pensar e fazer comunicação como difusão de informações ainda é hegemônica na saúde. A comunicação continua sendo pensada e feita para informar, transferir informação, conceitos biológicos e para divulgar ações e projetos institucionais.

No entanto, como já assinalamos no início deste trabalho, novos debates vem arejando modelos teóricos paradigmáticos no campo da comunicação e saúde. Muito se devendo também ao processo de implantação do SUS, que tem provocado uma aproximação com outras abordagens teóricas, sobretudo nos processos de construção dos sentidos sociais. Essas novas abordagens – no campo teórico-metodologico e nas práticas de comunicação - são visíveis nas produções examinadas. A Mostra VideoSaúde foi criada com a intenção, e tem sido assim, de ser uma oportunidade de emergência destas abordagens.

Muitas das produções, por exemplo, procuram se afastar do conceito biológico da doença e trazem o conceito ampliado de saúde, ou seja, saúde não apenas como resultante da ausência doença, mas também como resultante de determinações entre a relação do homem com o ambiente e como resultante das condições sociais.

Este trabalho, portanto não se encerra aqui. Ele é uma primeira aproximação de leitura dos discursos circulantes sobre saúde produzidos em Pernambuco no final do século XX e início do século XXI. As informações aqui reveladas, no entanto, trazem contribuições para os estudos que buscam avaliar as estratégias comunicativas adotadas por entidades públicas e privadas nos processos de intervenção social tão freqüentes no campo da saúde. E revelam também que há ainda muito a ser feito na busca por um novo fazer e um novo olhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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VASCONCELOS, Eymard Mourão. Participação popular e educação nos primórdios da saúde pública brasileira. In: VASCONCELOS, Eymard Mourão (Org.) A saúde nas palavras e nos gestos. São Paulo: Hucitec, 2001. p. 73-99.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] A VideoSaúde – Mostra Nacional de Vídeos em Saúde é uma promoção do Departamento de Comunicação e Saúde, do Centro de Informação Científica e Tecnológica, da Fundação Oswaldo Cruz – DCS-CICT/FIOCRUZ .

 

[2] A primeira VideoSaúde foi realizada em 1992; a segunda, em 1994. Em 1998, aconteceu a III VideoSaúde e mais recentemente, em 2003,  a IV VideoSaúde. Da primeira a quarta mostra tem-se oficialmente 571 produções participantes.

[3] Diz o artigo 3º, da Lei Federal nº 8.080: “A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País”.

[4] O Júri da III VideoSaúde teve a participação de Alice Ferry, jornalista e bibliotecária da FIOCRUZ; Alícia Ianissevich, jornalista, editora executiva da Revista “Ciência Hoje”; Eduardo Stotz, sociólogo, pesquisador e professor da ENSP/FIOCRUZ; Inesita Araújo,pesquisadora e consultora de avaliação de produtos de comunicação de entidades governamentais e ongs e Tamara Egler, professora da IPPUR/UFRJ e organizadora do Festival Internacional de Multmídia. Os vídeos premiados foram: Kamenã (SP), em 1º lugar; Vamos acabar com a diarréia (PE), em 2º lugar e TV Pinel-Programa 7 (RJ),em 3º lugar. O Júri da IV VideoSaúde foi integrado por Carlos Alberto de Mattos, escritor, jornalista, crítico e pesquisador de cinema; Gabriella Dias, professora da UERJ e Diretora-Superintendente do Canal Universitário do Rio de Janeiro – UTV; José Mariani, cineasta e professor da PUC/Rio; Wagner Barbosa de Oliveira, jornalista e assessor de imprensa da Fiocruz e Sérgio Brito, cineasta e representante da VideoSaúde Distribuidora na Comissão Julgadora. Os premiados foram: Os melhores anos de nossas vidas (SP), em 1º lugar; Mundos Possíveis (PE), em 2º lugar e Vozes do Morro (PE), em 3º lugar.

[5] Oficialmente a VideoSaúde considera a participação de  41 títulos de Pernambuco. No entanto, o universo deste trabalho considera 48 produções.Na II Mostra o que aparece como um único título AIDS II – VINHETAS DE ANIMAÇÃO, eu considero cada vinheta uma produção, o que totaliza 03 produções. O mesmo acontece com o título CÓLERA I – SÉRIE DE VINHETAS, que eu considero 03 produções, já que são 03 filmetes sobre o assunto. Além disso, na III Mostra, os filmes de campanha “NEM COM FÁBIO JR., A CERCA, O MUNDO NÃO ACABOU e VÍRUS GAME” que aparecem juntos foram computados e classificados isoladamente.

 

[6] O trabalho não se propõe a utilizar a Análise de Discursos (AD), método preferencial de análise da Semiologia dos Discursos Sociais, para avaliar a produção videográfica em saúde produzida em Pernambuco. A proposta é fazer uma classificação da produção norteada, no entanto, por conceitos da AD. A AD se  constituiu enquanto disciplina a partir dos anos 50. E embora haja uma postura teórica americana e outra européia é na Escola Francesa que o método se solidificou e se desenvolveu. “A AD segue por caminhos bem diversos, resumidos por Orlandi:

A análise de discurso não é um metódo de interpretação, não atribui nenhum sentido ao texto. O que ela faz é problematizar as relações do texto, procurando apenas explicar os processos de significação que nele estão configurados, os mecanismos de produção de sentidos que estão funcionando. Compreender, na perspectiva discursiva, não é, pois, atribui um sentido, mas conhecer os mecanismos pelos quais se põe em jogo um determinado processo de significação. ORLANDI apud ARAÚJO, 2000, p.154 ).